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Processamento Auditivo
Esclarecendo o Processamento Auditivo e o Treinamento Auditivo.
Os estudos sobre o Processamento Auditivo foram iniciados há muitos anos, por volta da década de 50, com o intuito de uma melhor avaliação da percepção auditiva. No Brasil, embora ainda existam poucas publicações neste tema, as pesquisas abordando o Processamento Auditivo cresceram muito nos últimos dez anos. Vários trabalhos foram desenvolvidos, primeiramente, na adaptação dos Testes Comportamentais para a língua portuguesa e na padronização da normalidade na nossa população. Atualmente, várias pesquisas direcionam-se na verificação do desempenho destes testes comportamentais em populações especiais como, por exemplo, nos casos de doenças neurológicas, distúrbios de aprendizagem, hiperatividade, déficit de atenção, dislexia ou distúrbios da comunicação.
O Processamento Auditivo (PA) é o mecanismo pelo qual os estímulos auditivos recebidos pelo Sistema Auditivo Periférico (orelha externa, orelha média e orelha interna) são decifrados e interpretados ao longo de toda a via auditiva até as áreas corticais. Portanto, o Processamento Auditivo é o mecanismo responsável por “decodificar os estímulos auditivos e dar um significado a eles (codificá-los)” (Pereira, 1993).
No consenso realizado em Dallas, abril de 2000, e publicado pela JAAA (2000), a Desordem de Processamento Auditivo é caracterizada por um "déficit perceptual auditivo, no qual a informação auditiva não é bem decifrada, mesmo quando os limiares auditivos tonais estão dentro da normalidade". É muito difícil estabelecer uma correlação direta entre a desordem apresentada e a manifestação, assim como entre o próprio grau da desordem. Isto pode ocorrer devido à "individualidade da organização cerebral e às patologias que afetam tal organização" (ASHA, 1996).
Pereira (1996) descreveu 5 campos principais de manifestações comportamentais que podem estar relacionadas à Desordem de Processamento Auditivo (DPA). Estes campos são:
- Quanto à comunicação oral: problemas de produção de fala envolvendo os sons /r/ e /l/ principalmente; problemas de linguagem expressiva envolvendo regras da língua (estrutura gramatical); dificuldade de compreender em ambiente ruidoso e de compreender palavras de duplo sentido;
- Quanto à comunicação escrita: inversões de letras, orientação direita/esquerda; disgrafias; dificuldade de compreender o que lê;
- Quanto ao comportamento social: distraídos; agitados/hiperativos/muito quietos; tendência ao isolamento;
- Quanto à audição: às vezes compreendem bem e às vezes não; atenção ao som prejudicada e dificuldade em escutar em ambiente ruidoso;
- Quanto ao desempenho escolar: inferior em leitura, gramática, ortografia, matemática; desempenho prejudicado por não entender bem o professor e pelo ruído ambiental.
Katz (1992) classifica os tipos de Desordem de Processamento Auditivo apoiado em causas comuns que poderiam influenciar nas alterações das habilidades auditivas. Os três tipos de categorias quanto ao tipo de prejuízo envolvido nas DPA são: Decodificação, Codificação e Organização.
Decodificação: envolve a aquisição de conhecimentos através da habilidade de análise acústica do estímulo e está muito relacionada com a capacidade de reconhecimento da palavra.
Codificação: envolve a capacidade de integração das diversas informações sensoriais auditivas e das auditivas com outras informações sensoriais não-auditivas.
Organização: responsável pelos processos envolvidos na aquisição de conhecimentos adquiridos com a habilidade de seqüencializar eventos sonoros, o que estaria muito relacionado com a memória auditiva.
Katz também associa os tipos de Desordens de Processamento Auditivo com algumas habilidades auditivas e manifestações clínicas (Tabela 2).
Tabela 2: Tipos de Desordens de Processamento Auditivo (DPA).
Tipo de desordem |
Problemas associados |
Decodificação |
Dificuldade de ouvir (pede repetições ou sons intensos)
Dificuldade de compreender em ambiente ruidoso
Problemas de fala
Problemas de escrita (trocas e orientação D/E)
Lenta para aprender |
Codificação |
Linguagem expressiva
Dificuldade de compreensão (oral e escrita)
Distração
Disgrafias
Problemas comportamentais |
Organização |
Quando entretido não responde
Desorganização na escola e no lar
Inversões na fala e escrita |
Treinamento auditivo
Na Audiologia, é considerado como um conjunto de estratégias que visam a melhora da escuta da fala pela a criança. Desta maneira, o Treinamento possui quatro etapas interligadas: a estimulação das habilidades auditivas alteradas, o fornecimento de estratégias de compensação, orientações a pais e educadores e melhora do ambiente acústico.
Chermak e Musiek (1998) recomendam um programa de intervenção das Desordens de Processamento Auditivo, com bases na plasticidade e maturação do Sistema Nervoso Central, através da estimulação intensa de habilidades auditivas. Os autores afirmam que “a estimulação e a experiência ativam e reforçam as vias neurais específicas”. O principal objetivo da intervenção é o de melhorar as habilidades auditivas e a compreensão da linguagem falada.
O Treinamento Auditivo pode ser realizado por audiologistas em cabinas acústicas ou por terapeutas da área da linguagem em sala de terapia. O treino realizado em cabina fornece uma estimulação auditiva mais intensa com estímulos e ambiente controlados acusticamente. Esta estimulação é normalmente indicada para os casos de Desordens de Processamento Auditivo de moderada à severa, onde há uma razoável dificuldade de compreensão da fala em ambientes desfavoráveis.
Uma das vantagens do treino em cabina é de que o estimulo acústico, tanto da mensagem como da competição, pode ser controlado quanto ao modo de apresentação (monótico ou dicótico), o tipo de estímulo auditivo (verbal ou não verbal) e a intensidade (relação sinal/ruído). A estimulação pode ser maior numa orelha do que na outra em casos de assimetria no desempenho auditivo. Todo o treino seguirá uma hierarquia de complexidade, iniciando com a facilitação das respostas dos testes para situações mais difíceis como, por exemplo, o aumento do ruído de fundo.
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